
Field NotesInfraestrutura de agentes
Por que seu agente muda de comportamento quando você troca o modelo
Em maio de 2026 um pesquisador da KailosLab rodou 432 execuções para testar uma coisa que parece óbvia. Ele deu ao Gemini 2.5 Flash uma instrução de duas linhas e mediu quantas das 24 tarefas o modelo acertava. Deu 95,8%. Depois trocou por um processo de seis etapas com lista de arquivos permitidos, critério de sucesso e especificação de verificação, que é o que qualquer um de nós escreveria depois de um mês apanhando em produção.
O acerto caiu para 66,7%. Das 8 falhas, 8 foram violação de formato: o modelo entendeu a tarefa e respondeu narrando o raciocínio em vez de emitir o JSON.
A equação que organiza tudo
Agente é modelo mais harness. O harness é a infraestrutura em volta do modelo: system prompt, definição e formato das ferramentas, loop de execução, gestão de contexto, política de compactação, tratamento de erro e verificação.
Parte da política do agente está nos pesos. A outra parte está no harness. Quando um paper reporta ganho de benchmark sem trocar o modelo, quase sempre o que mudou foi o harness.
Daí o corolário desconfortável: trocar de modelo sem recalibrar o harness é trocar metade da política do agente e manter a outra metade errada.
O que o experimento mediu
O HEAT-24 cruzou seis modelos, quatro faixas de capacidade e três níveis de harness sobre 24 tarefas com verificação binária via git diff.
| Modelo | Light | Balanced | Strict |
|---|---|---|---|
| Gemini 2.5 Flash | 95.8% | 58.3% | 66.7% |
| Qwen3.5-122B (reasoning) | 87.5% | 75% | 91.7% |
| GPT-OSS-120B | 95.8% | 95.8% | 87.5% |
| Qwen3.5:2B | 0% | 58.3% | 4.2% |
| Gemma4:e2B | 91.7% | 91.7% | 91.7% |
Ordene por qualquer coluna. n=24 por célula, k=1 repetição — evidência preliminar, e os intervalos de Wilson são largos.
Três leituras que a tabela sustenta sozinha.
O modo de falha é diagnóstico. format_violation indica harness pesado demais para o modelo, e respondeu por 25 das 26 falhas dos modelos capazes. wrong_file indica harness leve demais.
Contagem de parâmetro não prevê estabilidade. O Gemma4:e2B, com 2B de parâmetros, entrega 91,7% nas três condições, mesma estabilidade de um modelo 60 vezes maior. A variável que separa os dois é qualidade de instruction-tuning.
Reasoning inverte a curva. O Qwen3.5-122B vai pior no balanced e melhor no strict, e sob strict a latência cai de 35,4 s para 23,3 s. Restrição explícita encurta a cadeia de pensamento.
As ressalvas, que também são notícia
O próprio autor classifica o resultado como preliminar: k=1 repetição, n=24 por célula, e intervalos de Wilson largos — 58,3% carrega [36,6; 78,2]. Cada faixa de capacidade é representada por um único modelo, então comparação entre faixas é exploratória.
Isso não invalida o achado. Muda o que dá para afirmar: existe um efeito grande e reprodutível dentro de cada modelo testado, e não uma lei sobre categorias de modelo.
O eixo do paper é o eixo do mercado
As três condições testadas têm correspondente direto em produto.
| Pi | DeepAgents | |
|---|---|---|
| Posição | light | strict |
| System prompt | abaixo de 1.000 tokens | extenso, multi-estágio |
| Ferramentas | read, write, edit, bash | planejamento, filesystem, shell, subagentes, memória, skills |
| Tese | o modelo se carrega | o harness carrega o modelo |
O DeepAgents se declara model-agnostic, e é verdade: roda com qualquer LLM que faça tool calling. Só que compatibilidade de API descreve interface, e o mesmo harness entrega 95,8% com um modelo e 58,3% com outro.
Model-agnostic é promessa de interface, não de comportamento.
Faça a conta na sua operação
O paper mede acerto, não custo. Mas a decisão de harness quase sempre vira decisão de modelo, e aí a conta muda de ordem de grandeza.
Quanto isso custa na sua operação
| Modelo | Custo por tarefa | Custo por mês | Relativo |
|---|
Preços de tabela por milhão de tokens, sem desconto de cache nem de volume. Serve para ordem de grandeza, não para orçamento.